Procura-se: Empatia!

Você sabe o que é empatia? Pratica diariamente? Qual foi a última vez? Não é fácil escrever sobre esse assunto. Há tempos penso e rascunho coisas sobre isso e, claro, recorri à Rubem Alves que logo me alertou: “A solidariedade, como a beleza, é inefável – está além das palavras.” Não vim aqui ensinar nada a vocês, mas quero fazer uma reflexão importante, que tenho feito em meus próprios atos, e gostaria de compartilhar com aqueles que acham importante pensar além de nós.

Todos nós somos de fases. E, como vivo de escrever, minhas fases são de palavras – e, por sua vez, de significados. Já fiquei tempos matutando a coitada da reciprocidade e hoje minha fase está na EMPATIA. E é dela que vou falar. Sem sair da minha linha de raciocínio, mas, fora do escopo, me veio em mente que tem tudo a ver com a maturidade chegando: você deixar de querer reciprocidade e se preocupar mais em ter empatia. É a preocupação com os próprios atos e independência.

Voltando à Empatia… ando observando o quanto ela é importante, mal interpretada e até desconhecida. Praticá-la, então… é um suplício. Dói, será? É tão longe de nós pensar em um convívio empático que quando queremos tocar o outro diante de uma situação nos apoiamos em exemplos do tipo: “você que é um pai ou uma mãe de família, pense nos seus filhos”. Amigos, vivemos em uma sociedade também de filhos que não são pais e até mesmo de pais que não exercem suas funções de pais. Precisamos exercer a empatia independentemente de nossos laços familiares. Temos que olhar para o outro enquanto semelhante. Semelhante a NÓS, não aos NOSSOS.

Não podemos ser empáticos no sofá vendo o noticiário da Síria, Europa e USA. A solidariedade tem que estar aqui. No olhar ao lado. Na dor e no sentimento de quem nos toca, nos ouve e nos fala. Naquela pessoa que todos os dias passa por você na rua ou, não, naquela que passou apenas uma vez. Naquela pessoa que você pergunta mecanicamente todos os dias se está “tudo bem” sem sequer olhar seu rosto.

Vamos olhar para o outro enquanto ser humano pensante, que tem suas razões muito além de certo ou errado. Entenda o “não” que você recebeu e reflita o porquê de ter sido agraciado(a) com um “sim”. Não feche os olhos para os motivos do outro, sejam agradáveis ou não a você e a suas expectativas. Seja e-m-p-á-t-i-c-o.

Isso não é um pedido que vai sair da boca das pessoas. Isso é um alarde para que você se toque. Porque o mundo que você vê perdido, as pessoas que você vê mecânicas, a insegurança e falta de confiança que você deposita no outro, a carência e frieza que você vê se misturar nas relações, a falta do “olho no olho” que incomoda nas conversas, o “esse é o meu jeito” que não faz as pessoas se autoavaliarem, a cibernetização da razão e criação, a falta de diálogo, a inversão de valores, o descomprometimento, o egoísmo, a ganância, a perda de sentido, a infelicidade, a loucura… são frações de um mesmo espelho. Espelho esse que a gente critica, mas não deixa de se expor lá.

Deixe de se olhar por um instante. Veja que no mundo perdido tem pessoas pedindo ajuda. Seja solidário a elas e, quem sabe assim, não reavemos esse mundo. A empatia é uma palavra tão significativa quanto a reciprocidade. E a primeira merece a segunda. E nós, e o mundo, as merecemos também. Ressignifique-se. Seja e-m-p-á-t-i-c-o.

Se não me fiz entender, assim como os suplícios de “um pai e uma mãe”, faça como Rubem Alves e torne-se solidariamente um vendedor de balas em um semáforo:

“Já disse que solidariedade é um sentimento. É esse o sentimento que nos torna mais humanos. É um sentimento estranho, que perturba nossos próprios sentimentos. A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro. Acontece assim: eu vejo uma criança vendendo balas num semáforo. Ela me pede que eu compre um pacotinho de suas balas. Eu e a criança – dois corpos separados e distintos. Mas, ao olhar para ela, estremeço: algo em mim me faz imaginar aquilo que ela está sentindo. E então, por uma magia inexplicável esse sentimento imaginado se aloja junto aos meus próprios sentimentos. Na verdade, desaloja meus sentimentos, pois eu vinha, no meu carro, com sentimentos leves e alegres, e agora esse novo sentimento se coloca no lugar deles. O que sinto não são meus sentimentos. Foram-se a leveza e a alegria que me faziam cantar. Agora, são os sentimentos daquele menino que estão dentro de mim. Meu corpo sofre uma transformação: ele não é mais limitado pela pele que o cobre. Expande-se. Ele está agora ligado a um outro corpo que passa a ser parte dele mesmo. Isso não acontece nem por decisão racional, nem por convicção religiosa, nem por mandamento ético. É o jeito natural de ser do meu próprio corpo, movido pela solidariedade. Acho que esse é o sentido do dito de Jesus de que temos de amar o próximo como amamos a nós mesmos. A solidariedade é uma forma visível do amor. Pela magia do sentimento de solidariedade, meu corpo passa a ser morada de outro. É assim que acontece a bondade. (…) O menino me olhou com olhos suplicantes. E, de repente, eu era um menino que olhava com olhos suplicantes…”.

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