O dia em que conheci Rubem Alves

Sou uma pessoa que gosta muito de palavras. Inicio este texto – ou melhor, esse blog – avisando que não as economizo; e, das melhores que de mim possam sair, vou dedicá-las a Rubem Alves. Por isso, lanço este espaço de crônicas e respostas ao mestre do ensino – da vida, principalmente.

Há alguns bons anos fui apresentada a suas obras. Desde então, ali encontrei meu principal refúgio. De tempo, de medos, questionamentos… Rubem Alves tinha uma intimidade com a vida, Deus e a natureza sensacional. Por isso era tão digno de seus títulos.

O vi pessoalmente há exatos sete anos – quatro antes de seu falecimento. Na época, respirava seus ensinamentos. Ele era meu super-herói. Queria entender a vida apenas por meio de suas palavras. Mas parece que não tinha lido o bastante.

Foi no evento “Sempre um papo”, no Grande Teatro do Palácio das Artes, aqui em Belo Horizonte. Era mais um lançamento de livro e, quando ele subiu ao palco, meu coração parecia sair pela boca. Queria chorar de emoção e após alguns segundos de susto.

Rubem Alves não era forte como o Super-Homem; não parecia ágil como o Homem-Aranha; não tinha a sagacidade de Batman. Ao contrário, era um velhinho de movimentos limitados e pensamentos lentos. Em certos momentos ele até buscava ajuda de terceiros para saber do que estava falando, quando não conseguia concluir uma frase.

Ali senti uma dor profunda de quem não sabe lidar com a perda. E olha que não tínhamos uma relação pessoal, algum laço familiar ou algum encontro de rotina. Mas, mesmo assim, senti ali que prestes a perder alguém muito importante para mim. Ali caiu por terra toda a fantasia que minha cabeça fez daquele cara que me guiava.

Rubem Alves era meu super-herói de porta-retrato (expressão do próprio escritor que podemos aprofundar futuramente). Ao vivo ele se mostrou um ser humano comum, e, para a minha tristeza, mortal.

Hoje vejo que pouco sabia daquele mestre. Se tivesse um novo encontro com ele agora não teria do que temer. E o que aprendi de lá para cá seguiu sendo em suas palavras. Em uma carta a Roberto Marinho em 1998, Rubem Alves fala da velhice com um conhecimento e uma paz ímpar: “(…) os ipês que, pensando que a morte está próxima, desandam a florescer para, assim ejacular suas sementes pelos campos. Ipês: metáforas para aqueles que já não são jovens (…)”.

Rubem Alves sabia onde estava, o que viria pela frente e viveu da melhor maneira: por meio da aceitação. Mais um ponto a aprender com ele. De fato, ele fez o que propôs na carta. Como um ipê, semeou a mim e a outros milhares, engrandecendo e engrandecidos com suas obras.

Hoje, quando fecho os olhos para pensar em um super-herói, o vejo sentado em um banco de jardim florido, sem capa, sem roupas apertadas, com um papel e uma caneta na mão e apenas um modo de voar: pela imaginação.

Bora decolar também?

7 comentários em “O dia em que conheci Rubem Alves

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  1. Lindo texto, como associar os ipês ao fim da vida!Lindo,mesmo na velhice floresce para se eternizar.Lindo Queka essa metáfora e lindo sua sensibilidade.Muito me orgulho.

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